Entrevista realizada por Diego Luiz Pereira da Silva com Márcia Maria Recchia, em 24 de maio de 2025, em Piracicaba (SP), como parte das atividades da disciplina de graduação História do Ensino da Arte no Brasil: trajetória política e conceitual e questões contemporâneas, ministrada pela Profa. Dra. Sumaya Mattar no Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
A disciplina trabalha com a Metodologia da História Oral como estratégia de criação de fontes primárias sobre vida, arte e educação em uma perspectiva não hegemônica e antirracista. Os estudantes realizam entrevistas com pessoas cujas experiências têm interesse em conhecer, buscando produzir e disseminar narrativas, memórias e saberes que contribuam para ampliar as histórias da arte e de seu ensino.
Na entrevista, Márcia Maria Recchia, conhecida como Marcinha Vila África, reconstrói sua história pessoal e familiar a partir de sua identidade como mulher negra e de sua profunda ligação com a Vila África, comunidade quilombola urbana de Piracicaba. A oralidade e a memória dos mais velhos atravessam seu relato sobre os deslocamentos da comunidade, as formas coletivas de vida, as experiências de racismo e segregação e a retomada de uma história que, durante muito tempo, permaneceu desconhecida pelos próprios moradores. Batuque de umbigada, samba, carnaval, capoeira, dança afro e outras manifestações aparecem como práticas de pertencimento, resistência, educação e transmissão de saberes ancestrais.
Márcia também narra sua trajetória de formação e atuação como professora de Educação Física e pedagoga, marcada por dificuldades materiais, pelo ingresso tardio na universidade e pela luta para inserir e afirmar as culturas afro-brasileiras nos espaços educativos. Sua experiência articula educação formal e saberes comunitários e evidencia o papel da cultura como instrumento de autoestima, reconhecimento e transformação social. A conversa aborda ainda sua atuação na Associação Esportiva e Cultural Vila África de Piracicaba e na consolidação do Centro Cultural Rafael Batista Antonio – Faé, espaço dedicado à continuidade das manifestações culturais, à memória da comunidade e à construção de uma “Universidade dos Saberes”, fundada na tradição, na coletividade e no respeito aos mais velhos.
Palavras-chave: Vila África, quilombo urbano, História Oral, memória, cultura afro-brasileira, educação, capoeira, dança afro, ancestralidade, identidade negra.