Entrevista realizada por Marcos Fellipe e Bruno Sperança com Nair Maria Correia de Sales, em 15 de junho de 2025, em sua residência, em São Paulo (SP), como parte das atividades da disciplina de graduação História do Ensino da Arte no Brasil: trajetória política e conceitual e questões contemporâneas, ministrada pela Profa. Dra. Sumaya Mattar no Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

A disciplina trabalha com a Metodologia da História Oral como estratégia de criação de fontes primárias sobre vida, arte e educação em uma perspectiva não hegemônica. Os estudantes realizam entrevistas com pessoas cujas experiências têm interesse em conhecer, buscando registrar e valorizar trajetórias, memórias e saberes que contribuam para ampliar as narrativas sobre a arte, a educação e a sociedade.

Nair reconstrói uma trajetória marcada por trabalho, deslocamentos, dificuldades econômicas e capacidade de reinvenção. Nascida em Pernambuco e criada em uma família numerosa, relembra brincadeiras feitas com materiais simples, o trabalho doméstico compartilhado entre os irmãos e a participação na produção dos alimentos vendidos pela família. Ao longo da vida, exerceu diferentes atividades, entre elas a costura, tendo realizado formação e trabalhos ligados à Marinha, antes de se estabelecer em São Paulo.

O artesanato ocupa lugar central em seu relato. Após ficar desempregada, Nair buscou cursos e passou a aprender crochê, pintura e outras técnicas, conciliando o aprendizado com os cuidados familiares. Com o agravamento de problemas de mobilidade, o fazer artesanal ganhou ainda maior importância, tornando-se forma de trabalho, ocupação, autonomia e continuidade de sua vida produtiva. Ao mostrar peças e explicar materiais, técnicas, adaptações e modos de comercialização, a entrevistada revela um conhecimento construído pela experiência e pela persistência. Sua fala aproxima arte, artesanato, sobrevivência e transmissão de saberes, evidenciando como práticas manuais podem constituir espaços de criação, dignidade e transformação diante das adversidades.

Palavras-chave: História Oral, artesanato, crochê, costura, trabalho, memória, migração, saberes manuais, autonomia, educação.