Entrevista realizada por Ana Luiza Pereira Lima e Ana Beatriz Francisco Moraes com Otavio Pereira de Souza, em 13 de maio de 2025, em sua residência, na Zona Norte de São Paulo, como parte das atividades da disciplina de graduação História do Ensino da Arte no Brasil: trajetória política e conceitual e questões contemporâneas, ministrada pela Profa. Dra. Sumaya Mattar no Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
A disciplina trabalha com a Metodologia da História Oral como estratégia de criação de fontes primárias sobre vida, arte e educação em uma perspectiva não hegemônica. Os estudantes realizam entrevistas com pessoas cujas experiências têm interesse em conhecer, buscando registrar e valorizar trajetórias, memórias e saberes que contribuam para ampliar as narrativas sobre a arte, a educação e a sociedade.
Nascido em 1936, no sertão da Bahia, Otavio reconstrói uma trajetória atravessada pela perda precoce dos pais, pela separação dos irmãos e pelo trabalho desde muito jovem. Criado em uma fazenda por uma família que o acolheu, mas sem acesso à escolarização, relata as duras condições de sua infância e juventude e a experiência de ter crescido trabalhando. A entrevista é marcada pela emoção com que revisita essas memórias e pela importância que atribui à fé, à família e ao trabalho na construção de sua vida.
Já em São Paulo, sua narrativa se concentra especialmente no esforço para estabelecer uma casa e garantir melhores condições de vida para os filhos. Trabalhador da coleta de lixo, Otavio conta como, depois das jornadas de trabalho, dedicava noites e fins de semana à construção da própria moradia e das casas de familiares, aprendendo a construir pela prática, pela observação e pela necessidade. A casa surge, assim, como dimensão material e simbólica de sua trajetória: resultado de força, persistência, conhecimento adquirido no fazer e desejo de oferecer à família aquilo que ele próprio não teve. Seu testemunho articula migração, trabalho, moradia, saberes não escolarizados e transmissão de valores entre gerações.
Palavras-chave: História Oral, memória, Bahia, migração, trabalho, moradia, construção, saberes da prática, família, educação.