Carla Maria dos Santos Silva, 2025 – Mestrado em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades, Universidade de São Paulo
A crescente valorização de Carolina Maria de Jesus como intelectual (Evaristo, 2023) e intérprete do Brasil (Barbosa, 2023) tem despertado o interesse de diversas áreas do conhecimento. No entanto, ainda são raras as pesquisas no campo da História que mobilizam diretamente seus manuscritos como fonte para análise de sua produção intelectual. Diante dessa lacuna, esta dissertação investiga sua obra a partir do Fundo Carolina Maria de Jesus, custodiado pelo Arquivo Público Municipal Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik, em Sacramento (MG). A pesquisa busca responder às seguintes questões: como as ideias da autora desafiam ou reconfiguram a hierarquização racial no pós-Abolição? E de que maneira uma leitura crítica de seus textos, em diálogo com o contexto de produção, evidencia a relevância histórica de seu pensamento? A partir da seleção e organização dos documentos do acervo, foram desenvolvidas reflexões sobre a estrutura racial de Sacramento, conectando memórias da autora às experiências de militantes negros da cidade, além da análise das condições materiais de conservação do fundo e dos sentidos sociais atribuídos à sua memória. Um manuscrito inédito, no qual Carolina rememora vivências na cidade, foi escolhido como foco analítico. Sua leitura foi orientada pelos conceitos de escrevivência (Evaristo, 1996) e dispositivo de racialidade (Carneiro, 2023), com o intuito de compreender como sua escrita opera como crítica à ordem social vigente e como projeto de emancipação negra. A metodologia envolveu visita de campo, entrevistas, pesquisa documental e análise crítica de fontes primárias, com especial atenção ao manuscrito selecionado. A investigação concentrou-se nas relações raciais como eixo estruturante da narrativa da autora, evidenciando como articula vivência e crítica social em sua produção escrita. Com esta pesquisa, busca-se contribuir para o campo da História Intelectual e para os estudos sobre Carolina Maria de Jesus, ampliando a compreensão de seu pensamento e de sua atuação como intelectual negra. A dissertação também propõe um diálogo com os debates sobre memória e arquivo, ressaltando a dimensão política e epistêmica de sua obra.
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