Entrevista realizada por Cecília de Almeida Costa e Vinicius Barbosa de Campos com Maria do Socorro de Almeida, em 20 de maio de 2025, presencialmente na Cohab V, em Carapicuíba (SP), como parte das atividades da disciplina de graduação História do Ensino da Arte no Brasil: trajetória política e conceitual e questões contemporâneas, ministrada pela Profa. Dra. Sumaya Mattar no Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
A disciplina trabalha com a Metodologia da História Oral como estratégia de criação de fontes primárias sobre vida, arte e educação em uma perspectiva não hegemônica. Os estudantes realizam entrevistas com pessoas cujas experiências têm interesse em conhecer, buscando registrar e valorizar trajetórias, memórias e saberes que contribuam para ampliar as narrativas sobre a arte, a educação e a sociedade.
Nascida em 1943, em Mandacaru, no sertão de Pernambuco, Maria do Socorro reconstrói uma infância marcada pela seca, pela escassez de água, pela vida em casa de taipa e pelo trabalho iniciado ainda criança. Aos seis anos, em 1949, sua família deixou o sertão em direção à zona canavieira do sul de Pernambuco. A mudança introduziu em sua memória imagens de abundância até então desconhecidas — rios, riachos, chuva, canaviais e trens —, mas também o trabalho infantil no plantio da cana e a impossibilidade de frequentar regularmente a escola.
A narrativa acompanha seus deslocamentos por engenhos e cidades pernambucanas, o trabalho doméstico iniciado na adolescência, os aprendizados ligados às regras e costumes das casas onde trabalhou, o casamento e a mudança para São Paulo, em 1968. Na capital paulista, Maria do Socorro voltou ao trabalho remunerado, passando por atividades fabris e pelo setor têxtil. Contada com humor, vivacidade e riqueza de detalhes, sua história articula memória familiar e história social, permitindo refletir sobre migração, trabalho infantil e feminino, desigualdade, escolarização interrompida, saberes construídos pela experiência e profundas transformações nas condições de vida ao longo de oito décadas.
Palavras-chave: História Oral, memória, Pernambuco, seca, migração, trabalho infantil, trabalho feminino, cana-de-açúcar, escolarização, saberes da experiência.